Água Vida, de Clarice Lispector

Por que eu li “Água Viva”, da Clarice Lispector?

Sendo bem sincero, sempre tive dificuldades de ler Clarice Lispector, mesmo na faculdade de Linguística enquanto a estudava. Sempre achava ela muito sem pé no chão, etérea demais, não sabia explicar… Eu sempre fui muito mais de leituras “de histórias com começo-meio-fim”, e ela nunca foi o meu estilo favorito de leitura. Tive que ler a obra A hora da estrela para o vestibular e terminei com o a cara que nem o emoji -> 🤔.


Mas, além de querer dar uma chance para ela depois de mais velho (e mais maduro, principalmente em termos literários), o fato pontual de querer lê-la foi por meio de um brinde da TAG – Experiências Literárias que recebi: esse ‘passaporte de leituras pelo mundo” que começa com a sugestão do Água Viva da Clarice Lispector.


Como o Água Viva é um livro bem curtinho (60 páginas + 20 páginas de posfácio) nesta edição da foto, da Editora Rocco, pensei em ser uma excelente oportunidade de finalmente conhecê-la.

E foi isso que eu fiz!

A não linearidade

Bom, minha leitura com Clarice se mostrou muito mais lenta do que o meu habitual por vários motivos, mas o principal é que foi bastante difícil, denso e profundo. Não é uma leitura corriqueira, que dá pra ler no transporte público. Foi preciso sentar, descansar e só depois, ler.

Mas onde tive a dificuldade de ler Clarice Lispector? A sensação agridoce é de não ter uma linha narrativa, uma sequência lógica ou temporal do que ela escreve. Sempre fui um leitor de narrativas e ler Água Viva se tornou um grande desafio.

E ela mesma reconhece isso, principalmente neste trecho em que ela diz que “vai falando e se arriscando à desconexão”.

Na verdade ainda não estou vendo bem o fio da meada do que estou te escrevendo. Acho que nunca verei mas admito o escuro onde fulgem os dois olhos da pantera macia. A escuridão é meu caldo de cultura. A escuridão feérica. Vou te falando e me arriscando à desconexão: sou subterraneamente inatingível pelo meu conhecimento.

Escrevo-te porque não me entendo.

Clarice Lispector, “Água Viva”.

E aqui ela se assumiu mesmo como “entregue ao instante”. Ou seja, não é para ter mesmo uma sequência lógica ou temporal, o livro inteiro acontece num mesmo momento, no “instante”.

Meu tema é o instante? Meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça; só no tempo há espaço para mim.

Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. É também como o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo a corpo comigo mesma. Não se compreender música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e as minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão.

Clarice Lispector, “Água Viva”.

Para quem sempre esteve acostumado a ler livros com narrativa linear, este livro se propôs como um grande desafio para mim. O livro não tem começo, nem meio, nem fim, só o “instante”. Se eu quiser ler apenas a segunda metade da obra, ou ler tudo de trás para frente, o livro ainda continua completo, inteiro e ‘lógico’. Consegue perceber o quanto este livro é incrível?

A “rainha das frases de impacto”

Mas enquanto lia este livro, reparei porque a Clarice Lispector é a rainha de citações impactantes e falsas que sempre aparecem nas redes sociais: o livro dela é cheio de reflexões incríveis que são da natureza mais crua do ser humano.

Alguns trechos me destacaram, como neste em que ela descreve que para “ouvir música” é necessário usar os outros sentidos além da audição. É uma delícia ler isto pois é fácil imaginar o tato ‘sentindo’ a música, né?

Vejo que nunca te disse como escuto música — apoio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim, ouço a eletricidade da vibração, substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos.

Clarice Lispector, “Água Viva”.

Neste outro momento, ela fala que a vida é formada por instantes, um constante “acende e apaga”, e que o único tempo que existe não é nem o presente, mas o “instantâneo”, pois o presente já é passado quando o instantâneo chega. Arrepiei quando li:

Mas o instante-já é um pirilampo que acende e apaga, acende e apaga. O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente o chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará num imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago. Só que aquilo que capto em mim tem, quando está sendo agora transposto em escrita, o desespero das palavras ocuparem mais instantes que um relance de olhar. Mais que um instante, quero o seu fluxo.

Clarice Lispector, “Água Viva”.

No trecho abaixo, gostei muito da relação que ela faz da morte com o ‘diálogo -> monólogo -> silêncio’. Dá para utilizar essa sequência em várias leituras artísticas.

Queria tanto morrer de saúde. (…) Por enquanto há diálogo contigo. Depois será monólogo. Depois o silêncio. Sei que haverá uma ordem.

Clarice Lispector, “Água Viva”.

E neste ela mostra no que ela é melhor: dor da existência humana, da reflexão do instante. Nisto me identifiquei muito com ela, ainda mais por sempre trabalhar na relação vida <-> dor no que escrevo.

Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Essa dificuldade é dor humana. É nossa. Eu me entrego em palavras e me entrego quanto pinto.

Clarice Lispector, “Água Viva”.

Pintura e poesia são a mesma coisa em Água Viva

Uma das vantagens de ter lido esta edição da Editora Rocco é a presença um posfácio do poeta Eucanaã Ferraz, que ajudou muito a leitura da obra. Clarice Lispector não é uma autora fácil de entender e apreciar, mesmo nos meios mais estudiosos, e ajuda muito a um guia literário, mostrando diferentes pontos de vistas e análises. Como é o caso desta edição.

Eucannã Ferraz faz uma associação entre Água Viva, de Clarice Lispector, com as obras do pintor Jackson Pollock pelo estilo de criação, uma vez que a narradora do Água Viva também é uma pintora. Aliás, como ela mesma diz: “(…) trocou, pela primeira vez, a tela pela escrita, e assim, guarda um sinal da primeira.” E é isto que interessa, esta presença, e não a ausência.

A narradora do Água Viva alcançar na escrita a abstração da pintura. A força principal do texto é o empenho dela em realizar a troca de tintas por palavras nessa realização de um imediatismo sensorial. Clarice manifesta uma perturbadora liberdade, expressa em ritmo impetuoso com automatismo e consciência. Água Viva é um texto de comovente experimentação.

Gostei? Recomendo?

Gostei muito! Como falei no começo, sempre tive muita dificuldade de entender Clarice Lispector e, tendo lido-a agora, muito mais maduro em termos intelectuais e de vivência, eu a entendi, finalmente! Entendi porque é tão difícil, porque ela é tão incrível e também porque Água Viva é tão bom.

Eu vou com certeza ler este livro novamente no futuro e vou absorver muito mais informação, é algo para se deixar na estante e ‘consultar’ a cada momento que a vida permitir. Fiquei feliz com a superação do ‘trauma de ler Clarice’ que eu tinha e de ter tido uma excelente experiência literária!

Recomendo? Sendo bem sincero, não. Pelo menos não para qualquer um. Como disse no texto, Clarice requer um tempo disponível na rotina para se dedicar à leitura, uma certa bagagem bibliográfica para apreciá-la, se não a leitura fica rasa. Eu recomendaria a quem já tem o hábito da leitura ou mesmo para quem eu explique antes ‘como funciona o livro’ para a pessoa estar preparada! hahah

Quem quiser, recomendo E MUITO a leitura da edição que eu li da Editora Rocco (link da Amazon aqui), com prefácio e posfácio explicativo e analítico. Ajudou a entender bastante o livro e também a admirar Clarice Lispector com todo o talento que ela tem.

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