Frida Kahlo e as Cores da Vida, de Caroline Bernard

Por que li “Frida Kahlo e as Cores da Vida”, da Caroline Bernard?

Eu não comprei este livro, ele que chegou até mim. Este foi um dos livros enviados pela Tag Livros no Kit Inéditos em Janeiro de 2021 e conta a história da pintora mexicana cujo nome é titulo da obra.

Quando peguei este livro, pensei “Caramba, eu não sei de nada sobre Frida Kahlo a não ser que ela é mexicana, pintora e feminista, isso porque ela está em todos os lugares da cultura pop.” E era verdade! Então esta foi uma ótima oportunidade de descobrir quem ela realmente foi!

A Casa Azul no próprio livro

Antes de falar da obra em si, há um detalhe bastante curioso sobre o livro que recebi. Como de praxe, todas as edições da TAG vêm em luvas, junto com o livrinho explicando a hora. A luva desta edição é azul, em referência à Casal Azul na qual Frida Kahlo morou e hoje é um museu na cidade dela. E todos os outros elementos e cores fortes homenageiam às roupas e adereços que a pintora usava no seu dia a dia. Legal essa contextualização, né?

Politicamente, quem foi Frida Kahlo?

Sempre quando eu vou explicar para as pessoas sobre “O que é Literatura?” eu respondo que é “a percepção do livro como obra artística dentro de um contexto social, político e econômico de uma sociedade”. Ler a obra por si só é “entretenimento”; ler a obra analisando seus contextos é “literatura”, e a TAG Livros faz isso muito bem com seus livrinhos e a contextualização do que será lido.

O livrinho que acompanha a obra (o de capa verde atrás da foto acima) fala de vários homens e mulheres que fizeram parte da vida de Frida Kahlo. Não sabia que a Frida era bissexual e também não sabia que ela teve vários amores.

O livrinho também introduz todas as questões com as quais a Frida Khalo se envolveu: a importância da figura dela como pintora, feminista, comunista e também de todas as questões pessoais e políticas que ela enfrentou.

A Frida sempre pintou a dor dela. Eu sempre achei os quadros dela bastante confusos e aleatórios, mas agora eu entendi. Quadros mostrando suas versões mexicanas e europeias, suas dores do acidente que mudou a sua vida, sua incapacidade de gerar filhos, seus coletes para a coluna… Agora eu entendi. E Frida é gigante!

Este quadro, por exemplo, é da Frida se enxergando como duas: a Mexicana e a Americana. Uma é a sua versão da cidade natal, quem ela realmente é. A outra é a versão que ela teve que construir de si mesma para relacionamento com investidores e outros poderosos dos países estrangeiros.
Esta obra, que dói só de olhar, mostra a dor e a frustração dela de não poder gerar uma criança (principalmente pelo acidente que sofreu, prejudicando órgãos internos, as ‘armaduras’ para segurar a coluna e não ser prejudicada, as traições de Diego e também os abortos espontâneos que teve na cama. Vale ler o nome do hospital que a acolheu e cuidou dela na cama.
Neste quadro, Frida pintou ela mesma, com seus animais de estimação (SIM! Ela tinha um macaquinho) e vegetação natural que ela tanto colocava nas suas obras.

E este livro é de um gênero que nunca havia lido: “romance biográfico”. É uma ficção, mas que se baseia em vários elementos biográficos pesquisados pela autora (no final do livro há uma bibliografia extensa mostrando a sua pesquisa) para contar a história de Frida Kahlo. Confesso que achei interessante, mas fiquei com um pé atrás ao ler este gênero.


O Prefácio já adiantou tudo

Logo ao começar o livro propriamente dito, há um prefácio escrito pela Katia Canton contando a vida de Frida Kahlo do ponto de vista histórico, como um documento mesmo. Algumas pessoas devem ter odiado esse “adiantamento” da história (mesmo a vida dela não ser segredo nenhum), mas eu gostei demais. Eu gostei porque eu ali já aprendi sobre a protagonista, sobre a importância da figura na cultura mundial. O que eu queria saber sobre a Frida Kahlo, ali foi tudo explicado, e também algumas passagens no livro já foram contextualizadas. Ou seja, eu li sabendo de mais informação sobre a Frida.

A partir do Prefácio (que era um documento), eu pude ler o livro, que era um romance biográfico.

O livro… É uma grande fanfic…

Sim, esta é a sensação que o livro me passou logo no começo e também quando eu terminei de ler a última página. Como alguns elementos históricos da vida da Frida Kahlo foram utilizados, todo o resto do livro, todo o “recheio”, é uma invenção, é uma verdadeira fanfic criada. Então o livro me passou o sentimento de que ele é ‘falso’, sabe? Eu não consegui acreditar muito no que estava lendo. Talvez isso seja um problema do gênero ou mesmo da obra em si, mas independente de ‘quem é o culpado’, não gostei.

Frida colocou mais alguns pontos brancos sobre a tela, enquanto se perguntava, temerosa, se já não seria tarde demais. O tempo que ela ficava longe do trabalho teria sido excessivo? Pintar lhe custava tanta força física que ela ficou com medo de não ter tempo o suficiente para todos os quadros que aguardavam dentro de si o momento de virem à luz. “No fundo, a pintura é a minha salvação”, ela pensou. “A pintura e Diego são minha vida”. Ela já tinha pensado muitas vezes nisso, mas dessa vez a frase ecoou profundamente. “Sem meus quadros eu já estaria louca. Eles me ajudaram a superar meus lutos, minhas dores. Quando pintava, todos os bebês mortos, a infidelidade de Diego, as dores nas costas desapareceriam por algum tempo. Nos meus quadros, nos meus inúmeros autorretratos, reencontrei-me depois de não mais saber quem eu era de verdade. Meus quadros me tornam independente das asperezas da vida”, ela pensou (…)

Página 224 e 225

O livro me deixou confuso quanto à representação feminista da Frida. Antes de ler a obra, achei que ela seria revolucionária, lutadora, inspiradora e outras qualidades destes grandes ícones. Mas quando terminei o livro achei ela uma pessoa… Fraca? Não lembra em nada sobre a Frida forte e empoderada que muitos falam a respeito. Ela sofreu demais (de dores no corpo e de romances) e prosperou na arte, mas não vi nenhum elemento aí que me provasse o motivo dela ser atualmente um ícone feminista contemporâneo.

Os diálogos me deixaram muito a desejar, principalmente os do relacionamento com Diego, que foi o muralista mexicano famoso, grande amor da vida dela. Me parecia um “romance adolescente” a relação de ambos e o diálogo. E por mais que as opiniões sobre ele foram tiradas de diários, ainda senti uma relação muito fraca mesmo para um amor tão forte.

Onde está a parte política? O livro só cita que ela participou do Partido Comunista, e só. Ela foi ativa dentro dele junto com Diego, mas as únicas menções foram os conflitos internos e o pedido para a saída de Diego (junto com ela). Ou seja, a autora perdeu uma oportunidade de abordar melhor essa questão da vida política de Frida Kahlo, que foi muito forte e mal foi citada no livro.

Algo que eu gostaria MUITO de ter tido neste livro que não foi aprofundado, apenas em poucos momentos, foi a criação, construção e análise dos quadros de Frida Kahlo. Dentro da obra, apenas uns dois ou três são descritos, e a gente passa a entender a linha de raciocínio da pintora, mas só. Já que a alma dela está nos quadros (e a sua fama também), eu queria ter mais quadros citados. Fiquei com vontade!

Gostei? Recomendo?

É um bom livro para quem está iniciando uma aproximação com a pintora Frida Kahlo (que foi o meu caso), mas só. Qualquer outro material disponível dela (análise de obras, outras biografias, materiais de estudo e filmes) consegue aprofundar muito melhor a vida desta grande artista mundial.

Gostei do livro? Não, porque poderia ter sido muito mais! Fui com afinco à leitura pensando que ia encontrar uma Frida Kahlo feminista, envolvida com política e uma análise mais profunda sobre seus quadros. Mas encontrei uma história fanfic meio adolescente, muito focada nos romances dela e nas suas dores. Se a Frida Kahlo não fosse um personagem real, mas sim fictícia, eu teria muita dificuldade de terminar o livro.

Recomendo a leitura? Depende, mais SIM do que NÃO. Se for para alguém que pouco tem o hábito da leitura e quer ter o primeiro contato com a vida da Frida Kahlo, este livro será uma excelente experiência. Mas qualquer leitor mais assíduo ou alguém que tenha um conhecimento maior da vida da pintora, vai achar este livro bastante raso.

Este é mais um dos livros que a leitura não me agrada… E tudo bem! Eu sempre falo que as pessoas precisam entender que não gostar de algum livro específico é importante para fomentar a leitura. Este livro, por exemplo, me decepcionou em vários aspectos que citei acima, mas mesmo assim foi uma grande leitura porque aprendi muitas coisas sobre a Frida Kahlo e também sobre romances biográficos. Todo novo livro é uma oportunidade de aprender algo. :-)

Um comentário em “Frida Kahlo e as Cores da Vida, de Caroline Bernard

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