Southernmost – Rumo ao sul, de Silas House

Por que li “Southernmost – Rumo ao sul”, do Silas House?

Bom, não vou negar que este é um dos livros que me conquistou pela capa, achei este por do sol lindo!

Estava rodando o site da TAG Livros quando vi esta capa e fui ler a respeito, me encantei. Como a intolerância ao público LGBTQIA+ ainda é muito forte, principalmente no meio religioso, fiquei bastante interessado na possível sensibilidade que seria abordada neste livro.

Ele foi distribuído pela assinatura Inéditos em setembro de 2018, então o adquiri pela loja (já que ainda não assinava o clube neste período).

Capa linda! Eu amei esse minimalismo!

Belíssimo projeto gráfico

Antes de falar do livro, é necessário falar o quanto esta capa é linda. Digo isto porque este foi um dos casos que “comprei o livro pela capa” e quando eu vi essa sequência de cores listradas, me apaixonei. E se você reparar bem, é um pôr do sol refletido na água, e o título do livro está em uma estrada. O que faz jus à história, já que ela é uma viagem rumo ao sul.

Mas não só a capa é linda, o projeto gráfico do marca-páginas e também no manual que vem junto também é lindo. Nestes livros antigos da TAG (até 2018, eu acho), eles colocavam pôsteres nas edições, e atrás dos pôsteres informações técnicas do livro e do autor.

As cores ajudaram esta foto a ficar bonita, vai! rs

É um lindo desenho do Helder Oliveira sobre a trajetória dos personagens saindo de onde moram, Tennessee, até Key West. E o artista deixou o desenho bastante “colorido” principalmente para ressaltar o tema LGBTQIA+ da obra (por isso o arco-íris no canto inferior esquerdo).

Mas… Vamos falar do livro!

Sobre o livro

Quando uma inundação arrasa a cidade onde vive o pastor Asher Sharp, ele oferece abrigo a um casal homossexual desabrigado. Após um episódio de preconceito, ele se manifesta contra a homofobia em um sermão — e isso custa seu trabalho, seu casamento e a guarda de seu filho. Desesperado e ansioso para consertar erros do passado, ele foge de carro com o menino em direção à Flórida.

Pôster-folheto que vem junto com a edição da TAG

O livro ganhou uma série de premiações (e é por isso que foi lançado pela TAG), tais como:

Porém, o que eu pensei que fosse o livro inteiro (o tema sobre os preconceitos que o pastor sofreria por abrigar o casal homossexual) foi na verdade só a primeira parte dele (basicamente 1/3 do livro)! Pela forma que o livro foi vendido para mim (em termos de marketing), eu pensei que ele seria uma grande filosofia sobre o tema, em que os personagens mergulhariam profundamente neste tipo de discussão e reavaliassem seus valores. Como alguns clusters se formaram (pai, filho, esposa, sogra, sociedade, religião e o casal homossexual), eu pensei que a questão LGBTQIA+ seria dialogada por cada tipo de personagem, cada um questionando o tema de acordo com o seu propósito, suas experiências e seus aprendizados.

Mas não, a primeira parte do livro é feita pelo preconceito que ele sofre na sociedade em que vive. E por mais que eu tenha achado esse preconceito muito caricato (as pessoas odeiam muito sem questionar, é sufocante), eu percebi que não era nada forçado, já que em pequenos vilarejos e até cidades pequenas, afastadas dos centros urbanos, isso é muito comum. Ainda mais quando a religião é dominante na comunidade.

Quando o pastor sofre o preconceito, além de ter seu relacionamento acabado e seu cargo como líder religioso destituído, ele perde a guarda da criança. E em um momento de desespero, ele pega o carro e viaja com a criança para o sul. O livro, portanto, não é sobre o preconceito que ele sofreu na sua comunidade: sua história é sobre uma “viagem” entre o pai Asher e o filho Justin.

“Viagem” está entre aspas porque é assim que o livro fala. O que ele fez, na verdade, foi um sequestro. E é aqui que eu fico incomodado com o livro (de forma ruim!).

Sequestro, oi?

É isso mesmo. Enquanto o livro vendia uma visão romântica sobre a viagem de pai e filho, essa questão de “ele está sequestrando o próprio filho” não saía da minha cabeça em nenhum momento.

Veja bem, o que aconteceu com o Asher foi uma injustiça? Sim, claro que foi. É fácil ver “de fora” da situação que aquela sociedade é doente e foi injusta com ele. Poxa, tiraram a guarda do filho! Ele ser expulso da congregação coisa (afinal, é uma instituição com regras bem claras) e ter seu casamento arruinado (não sei nem como eles eram casados de tão diferente que são) é uma coisa; agora perder a guarda do filho eu achei demais…

E aí ele decide sequestrar o filho (viajar ilegalmente com ele, já que não tem a guarda)… Sabe, um erro não justifica o outro. E fazer essa viagem é mais errado do que fizeram com ele (de acordo com as leis locais).

A viagem serviu para quê? Para quem?

Foi o primeiro questionamento que eu fiz quando eu terminei o livro. Para o pai/pastor/protagonista, foi apenas um momento em que ele aproveitou a presença do filho. Mas ele sofreu demais, porque percebeu que estava fazendo errado e postergou o reconhecimento do crime (o sequestro em si). Então ele ficou sofrendo demais por “estar vivendo os últimos dias com seu filho, já que ele vai ser tirado de sua vida para sempre, ainda mais depois do sequestro”.

A viagem serviu para o filho? Eu acho que não, viu… O que eu percebi na leitura é que o Asher queria proporcionar diferentes experiências para o filho antes de “voltar à vida da comunidade em que viviam”, já que ali ele sofreria muita lavagem cerebral da religião e dos amigos. Eu vi isso muito nos capítulos em que o filho filosofa sobre o que é realmente Deus, para principalmente afastá-lo daquela doutrina religiosa.

Sobre Deus

Durante o livro apareceram alguns capítulos que tinham títulos (os capítulos não têm nomes, mas estes têm), e todos com o mesmo nome: TUDO. E nestes capítulos, tanto Asher quanto Justin filosofaram sobre o que realmente é Deus: seja nas relações humanas, na natureza, nas lembranças, nos sentimentos… Não cheguei a contar ao certo quantos capítulos no livro têm essa abordagem, mas reparei que eles existem quando li a citação abaixo:

Justin costumava pensar que as árvores eram Deus. Mas agora, ali, ele acha que o oceano talvez seja Deus. Toda aquela força e fraqueza estendendo-se diante de nós. O oceano pode fazer tanta coisa quando quer, e às vezes pode ficar sem fazer nada além de ir e vir, formando ondas ou mantendo a calmaria. O oceano é um mistério, como Deus. Ambos são tão grande que não podemos ver tudo ao mesmo tempo, mas podemos captar pedaços aqui e ali. Justin acredita que Deus é tão grande quanto o oceano. Até maior. Mas muita gente acha que não. Elas acham que Ele é pequeno o bastante para caber em uma igreja, em uma bandeja de oferendas ou em um livro antigo. Pois Ele não é, e Sua mente é ainda maior do que Ele. As pessoas olham para o mar e pensam apenas na imensidão azul. Mas ele tem tantas cores. Agora mesmo Justin consegue ver dez tons diferente de azul, e muitos tons de verde. Também há linhas marrons e a ponta das ondas é branca. Quando a luz bate na água de uma determinada maneira, aparecem mais cores: vermelho, laranja, pêssego violeta. À noite haverá tons de cinza e se pudesse nadar para bem longe poderia ver a água ficando cada vez mas escura até se tornar completamente preta em uma noite totalmente nublada. Justin acha que os olhos de Deus são assim: têm todas as cores. Esse é o tipo de conversa que deixaria sua mãe horrorizada, mas ele acredita que Deus está em tudo e em todos. Pedaços dele. Ele não quer dizer apenas o espírito, mas verdadeiros pedaços de Deus. Acredita que Ele não está apenas no oceano, mas também em Shady, na areia, nas árvores, em cada pessoa daquela praia, em cada pessoa do mundo. Agora, neste exato minuto, Justin não consegue ver nada além do oceano, e isso é Tudo. E Justin consegue sentir esse Tudo debaixo da sua mão, que está apoiada no peito de Shady; e o coração de Shady está batendo em um ritmo constante, como as ondas na praia. Ele consegue sentir esse Todo debaixo dele, na areia. Pode senti-lo no cheiro das algas acariciando seu rosto. Pode ouvi-lo na risada dos adolescentes jogando vôlei, no choro do bebê e no som metálico do avião que passa acima de todos eles, na água que vai e vem, vai e vem. O oceano é deus, mas também somos todos nós.

Mas esse não é o tipo de cosia que ele pode falar em voz alta para ninguém. Ele sabe que é o tipo de conversa que pode ter consigo mesmo em sua cabeça quando está sentado em uma praia a milhares de quilômetros de casa, sem saber o que acontecerá em seguida.

Página 152-153

Pensando bem, talvez esta viagem seja para exatamente isso: o filho Justin ver Deus de outras formas além das que ele teve que aprender na igreja. Mas o problema é que, quando você termina o livro, repara que de nada serviu.

No final, nada foi concluído, apenas que Asher é um criminoso que sequestrou o próprio filho

No final, a culpa bateu e ele ‘devolveu’ o filho dele para a mãe. E foi rapidamente identificado e foi pego pela polícia, sendo agressivamente algemado no chão tal qual um criminoso. E o livro termina aí.

Muitas questões me incomodaram neste livro, mas duas delas se sobrepõem às outras:

Para que fazer isso? Supondo que essa viagem serviu para realmente mostrar ao filho as diferentes faces de Deus. Para que sequestrá-lo? Para que mantê-lo em cativeiro das outras pessoas? Tudo bem que o pastor estava desesperado em perder o filho dele e tomou uma atitude drástica, mas essa foi uma péssima construção de personagem. Se o protagonista fossem quem ele dizia que era, teria resolvido isso de outras formas menos criminosas. Então foi um ponto fraco.

Qual a finalidade deste livro? Quando um autor escreve um livro, eu sempre tento pensar qual é o motivo daquela obra, e deste eu não consegui. Não é para militar pela causa LGBTQIA+ porque a história não se desenvolve nisso. Não é para contar da relação entre pai e filho porque ela não é desenvolvida (eles não ‘crescem’). Não é para para dar uma lição de moral, porque no final nada de extraordinário acontece…. Enfim, eu não sei para qual motivo este livro foi escrito.

Gostei? Recomendo?

Gostei do livro? Não, porque não entendi “para que ele serve”. Além das frustrações que citei da histórias, das ausências de lições de moral, e até do propósito do livro, me frustrou a falta de desenvolvimento dos personagens. Eu nem criei um tópico porque nem valeria a pena, mas o irmão do pastor é um personagem promissor na história (eles estão indiretamente procurando-o) e ele do nada aparece. E não resolve muita coisa.

Recomendo a leitura? Infelizmente não. Eu confesso que a leitura é super gostosa, os capítulos são muito bem estruturas e li o livro sem nenhuma dificuldade. Seria um ótimo livro para indicar para alguém que quer começar a adquirir o hábito de leitura ou mesmo ter uma leitura prazerosa, ‘sem pensar muito’. Mas nem para isso o livro serviu. Se for para alguém ter “uma leitura leve e prazerosa”, eu facilmente tenho 10 livros diferentes E BONS para indicar.

Perceberam o quanto o livro se vende como algo que ele não é? =/

Mas mesmo assim, obrigado TAG LIVROS pela leitura e por pensar no tema. Pena que de forma errada.

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